O que é o Antigo e o Novo Testamento
A palavra testamento significa pacto. Entenda a divisão da Bíblia em dois blocos, quantos livros tem cada um e por que os dois continuam sendo lidos.
Redação Conversa com a Fé · · 9 min de leitura
Se você abriu uma Bíblia recentemente e viu que ela está dividida em duas partes muito desiguais, com nomes que parecem jurídicos, este texto é para você. Nada aqui pressupõe conhecimento anterior.
Começamos pela palavra, porque ela é a chave.
Testamento quer dizer pacto
"Testamento", nesse uso, não tem nada a ver com herança e cartório. É uma tradução antiga de uma palavra que significa aliança, pacto, acordo formal entre duas partes.
Então a Bíblia não está dividida entre "o velho" e "o novo" no sentido de obsoleto e atualizado. Está dividida entre dois momentos de um mesmo relacionamento: o pacto anterior e o pacto renovado.
Muitas Bíblias modernas usam "Antiga Aliança" e "Nova Aliança", e a tradução é mais clara.
Antigo Testamento: 39 livros, mais de mil anos
O Antigo Testamento é a Bíblia hebraica: os mesmos livros que o povo judeu lê até hoje, na mesma ordem básica, embora agrupados de outra forma. Foi escrito majoritariamente em hebraico, com pequenos trechos em aramaico, ao longo de um período muito longo.
Ele se organiza, na prática, em cinco blocos:
Lei, ou Pentateuco (5 livros). Gênesis a Deuteronômio. A criação, os patriarcas, a escravidão no Egito, a libertação, o Sinai, as leis e o deserto.
Livros históricos (12). De Josué a Ester. A entrada na terra, os juízes, a monarquia com Saul, Davi e Salomão, a divisão do reino, a queda, o exílio e a volta.
Livros poéticos e de sabedoria (5). Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos. É onde a Bíblia trata de sofrimento, oração, prática do dia a dia, sentido da vida e amor.
Profetas maiores (5). Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel. Chamados "maiores" pelo tamanho, não pela importância.
Profetas menores (12). Oseias a Malaquias. Livros curtos, alguns com um único capítulo.
O ponto de partida da história inteira é uma promessa feita a um homem:
Gênesis 12:1-3 — leia o capítulo em Gênesis 12.
Guarde a última linha, porque ela explica a estrutura da Bíblia toda: "serão benditas em ti todas as famílias da terra". Desde o começo, a promessa feita a uma família tem um destinatário maior do que aquela família.
Entre os dois: um intervalo de séculos
Isso quase nunca é dito a quem está começando, e causa muita confusão. Entre a última página do Antigo Testamento e a primeira do Novo passam-se aproximadamente quatro séculos.
Nesse intervalo, a Judeia passa do domínio persa ao grego e depois ao romano, o grego se torna a língua comum do Mediterrâneo, surgem as sinagogas como instituição, aparecem os grupos religiosos que o Novo Testamento menciona, como fariseus e saduceus, e a Bíblia hebraica é traduzida para o grego.
Por isso o mundo de Malaquias e o mundo de Mateus parecem tão diferentes. Eles são separados por mais tempo do que separa o Brasil colonial do Brasil de hoje.
E o Antigo Testamento termina com uma expectativa aberta, que o Novo vai retomar de imediato: "Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do SENHOR." (Malaquias 4:5)
Novo Testamento: 27 livros, cerca de cinquenta anos
Todo o Novo Testamento foi escrito em grego, e num intervalo de tempo muito mais curto. Ele tem quatro blocos:
Os quatro Evangelhos. Mateus, Marcos, Lucas e João. Quatro relatos da vida, morte e ressurreição de Jesus. Não são biografias no sentido moderno: são testemunhos com propósito declarado. João explica o dele:
João 20:30-31 — leia o capítulo em João 20.
Atos dos Apóstolos. A continuação do Evangelho de Lucas. Conta como um grupo pequeno em Jerusalém se espalha por todo o império, e por que passou a incluir não judeus.
As cartas (21). Documentos reais, escritos a igrejas e a pessoas específicas, resolvendo problemas concretos: divisão, imoralidade, fome, doutrina errada, conflito entre culturas, prisão. É por isso que ler uma carta sem saber a quem foi escrita gera tanto erro de interpretação.
Apocalipse. Um livro de gênero apocalíptico, escrito em linguagem simbólica para igrejas sob pressão. É o último da Bíblia e, para quem está começando, é o último que deve ser lido.
O que liga os dois
Aqui está a parte mais importante, e ela não é invenção posterior: a expectativa de um pacto novo está dentro do próprio Antigo Testamento.
Jeremias 31:31-33 — leia o capítulo em Jeremias 31.
Jeremias, séculos antes, escreve sobre um pacto futuro cuja diferença é a localização da lei: "Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações."
E na última refeição de Jesus com os discípulos, a palavra aparece: "Este copo é o Novo Testamento em meu sangue, que é derramado por vós." (Lucas 22:20)
É dessa frase que vem o nome do segundo bloco da sua Bíblia.
Vale registrar também como Jesus descreveu a relação entre os dois: "Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir." (Mateus 5:17)
E, depois da ressurreição, ele resume as Escrituras hebraicas usando a divisão judaica clássica: "todas as coisas que estão escritas sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas, e nos Salmos" (Lucas 24:44).
Por que cristãos continuam lendo o Antigo Testamento
Essa dúvida é honesta e comum: se existe um pacto novo, para que ler o antigo?
Três razões práticas.
Primeira: sem ele, o Novo é incompreensível. Palavras como cordeiro, sacrifício, templo, sacerdote, aliança, messias, exílio e páscoa não são explicadas no Novo Testamento. Elas são usadas como vocabulário conhecido. Quem lê só o Novo Testamento fica lendo respostas sem ter visto as perguntas.
Segunda: é o livro que Jesus e os apóstolos usavam. Quando o Novo Testamento diz "as Escrituras", está falando do Antigo. Paulo escreve a Timóteo: "e que desde tua infância conheceste as Sagradas Escrituras, que podem te fazer sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus." (2 Timóteo 3:15) As Escrituras da infância de Timóteo eram exatamente o Antigo Testamento.
Terceira: é onde está a maior parte da experiência humana da Bíblia. Luto, migração, fome, política, depressão, guerra, inveja entre irmãos, dinheiro, secas, fracasso de líderes. Os salmos de lamento e o livro de Jó não têm paralelo no Novo Testamento em quantidade.
Há diferenças reais de aplicação, e é bom não fingir que não existem. Cristãos, de modo geral, não praticam os sacrifícios do templo nem as leis cerimoniais, e o Novo Testamento discute isso de frente, incluindo a afirmação de Hebreus de que o primeiro pacto se tornou "ultrapassado" (Hebreus 8:13). A discussão sobre exatamente como cada tipo de lei se aplica hoje tem diferenças entre tradições cristãs, e não vamos resolver isso aqui nem tomar lado. O que praticamente todas concordam é que o Antigo Testamento continua sendo Escritura e continua sendo lido.
Cinco dúvidas que aparecem sempre
A Bíblia está em ordem cronológica? Não. Os livros estão agrupados por tipo, não por data. Dentro do Antigo Testamento, os profetas vêm todos depois dos históricos, mas muitos deles viveram durante os acontecimentos narrados nos livros dos Reis. Ler Isaías junto de 2 Reis, por exemplo, esclarece os dois.
Capítulos e versículos são originais? Não. Os textos originais não tinham numeração. A divisão em capítulos foi feita na Idade Média e a numeração dos versículos no século 16, para facilitar citação e localização. Isso explica por que, de vez em quando, um capítulo parece cortar um raciocínio no meio: a divisão é ferramenta de consulta, não estrutura do autor.
Por que dois Evangelhos contam a mesma cena com palavras diferentes? Porque são testemunhos distintos, escritos para públicos distintos, e nenhum deles se propôs a ser transcrição literal e cronológica. Isso não é defeito. Ver a mesma cena por dois ângulos costuma revelar mais do que ver por um.
Quanto tempo levo para ler tudo? Uma Bíblia inteira, em ritmo confortável de leitura silenciosa, leva em torno de 70 a 80 horas. Distribuído em vinte minutos por dia, dá menos de um ano. Ninguém precisa de pressa.
Preciso começar do começo? Não, e para a maioria das pessoas é melhor não começar. Um Evangelho primeiro dá contexto para tudo o mais.
Uma nota sobre quantos livros tem a sua Bíblia
Se você comparar uma Bíblia católica com uma Bíblia evangélica, vai encontrar uma diferença no Antigo Testamento. A edição católica inclui alguns livros a mais, chamados deuterocanônicos por uns e apócrifos por outros, como Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os Macabeus, além de trechos maiores em Ester e Daniel.
Essa diferença é antiga, envolve qual coleção foi recebida como canônica em qual comunidade, e não é o tipo de assunto que resolvemos num parágrafo, nem é o nosso papel resolver. Vale saber que a diferença existe, de onde ela vem e que o Novo Testamento é idêntico nos dois casos: os mesmos 27 livros.
Aqui no site, todos os versículos vêm da Bíblia Livre, uma tradução em domínio público, e trabalhamos com os livros comuns às duas tradições.
Uma frase para levar
O Novo Testamento abre o quarto Evangelho voltando ao mesmo começo do primeiro livro da Bíblia: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus." (João 1:1) E, poucos versos depois, o que a fé cristã afirma sobre esse encontro dos dois blocos: "E aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós" (João 1:14).
Se você vai começar a ler, como ler a Bíblia sem desistir no Levítico tem a ordem prática. Se quer saber quem escreveu cada parte, quem escreveu cada livro da Bíblia trata disso sem esconder o que se discute. E para ver um verso do Novo Testamento aberto por inteiro, João 3:16, versículo por versículo.
Coleções: versículos sobre fé e versículos para crianças.
Ouça de quem escreveu um dos 27
João viu, escreveu e disse por que escreveu. Ele conta a cena e mostra onde está o texto.