Jó e o silêncio de Deus
Trinta e cinco capítulos de perguntas sem resposta, três amigos explicando demais e uma voz que aparece no fim sem explicar nada.
Redação Conversa com a Fé · · 8 min de leitura
O livro de Jó é o texto da Bíblia que mais gente cita sem ter lido inteiro. A frase "o Senhor deu, o Senhor tomou" está no capítulo 1. A frase "meus olhos te veem" está no capítulo 42. Entre as duas existem quarenta capítulos de gritaria, e é ali que o livro realmente fica.
Este texto é sobre esse meio. Se você está passando por algo que ninguém consegue explicar, é possível que o meio seja a parte que te serve.
O ponto de partida: não era castigo
O livro faz questão de eliminar a hipótese mais confortável antes de começar.
"Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este homem era íntegro e correto, temente a Deus, e que se afastava do mal." (Jó 1:1)
Essa informação está na primeira linha, e ela é decisiva. O leitor sabe, desde o início, que o que vai acontecer não é resultado de pecado oculto. Isso significa que todo o esforço dos amigos de Jó, ao longo de trinta capítulos, para descobrir o erro escondido dele, é um esforço que o leitor já sabe estar errado.
Ele tinha dez filhos e um patrimônio grande (Jó 1:2-3). Em um único dia, quatro mensageiros chegam um atrás do outro e ele perde tudo, inclusive os filhos.
E a primeira reação dele é aquela frase famosa: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá voltarei. O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR." (Jó 1:21)
Aqui é preciso um cuidado editorial. Essa frase é verdadeira e está no texto. Mas ela é a reação da primeira hora, dita antes das feridas, antes dos amigos, antes das noites. Usá-la para calar alguém que está sofrendo há três meses é usar um verso fora do tempo dele. O próprio Jó não conseguiu sustentar essa serenidade por muito tempo, e a Bíblia registrou isso sem apagar.
Depois vem o corpo
"Então Satanás saiu de diante do SENHOR, e feriu a Jó de chagas malignas desde a planta de seus pés até a topo de sua cabeça. E Jó tomou um caco para se raspar com ele, e ficou sentado no meio da cinza." (Jó 2:7-8)
Um homem raspando a própria pele com um pedaço de telha, sentado em cima de cinza. É essa a imagem.
E é aí que aparece a esposa, com uma fala que costuma ser tratada como traição: "Ainda manténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre." (Jó 2:9)
Vale um pouco de compaixão por ela. Ela também perdeu os dez filhos. Ela está vendo o marido apodrecer vivo. A frase dela é a frase de alguém que não quer ver mais sofrimento inútil. Jó responde: "Receberíamos o bem de Deus, e o mal não receberíamos?" (Jó 2:10)
Os sete dias em que os amigos acertaram
Os três amigos chegam. E o começo deles é impecável.
Jó 2:11-13 — leia o capítulo em Jó 2.
Eles vêm de longe, choram, rasgam a roupa, sentam no chão e ficam sete dias em silêncio, "pois viam que a dor era muito grande".
Essa é a melhor coisa que alguém faz por Jó em todo o livro. Sete dias de presença sem discurso. Se o livro terminasse no capítulo 2, Elifaz, Bildade e Zofar seriam modelo de amizade.
O problema começa quando eles abrem a boca.
O erro dos amigos foi teologia, não maldade
A partir do capítulo 4, os três passam trinta capítulos defendendo uma tese que soa muito lógica: Deus é justo, Deus retribui, logo quem sofre muito pecou muito. E se Jó não sabe qual foi o pecado, é porque está escondendo ou porque é orgulhoso demais para admitir.
Elifaz abre assim: "Lembra-te agora, qual foi o inocente que pereceu? E onde os corretos foram destruídos? Como eu tenho visto, os que lavram injustiça e semeiam opressão colhem o mesmo." (Jó 4:7-8)
Não é uma frase absurda. É quase uma frase de Provérbios. O problema é que ela está sendo aplicada como diagnóstico a um caso concreto sobre o qual o falante não tem informação nenhuma.
Jó responde com uma das definições mais precisas de mau consolo já escritas: "Ouvi muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores miseráveis." (Jó 16:2)
Se você já esteve doente, enlutado ou desempregado e alguém apareceu para te contar o motivo espiritual do seu problema, você conhece a sensação exata desse versículo.
O que Jó diz no meio, e que também é Escritura
Jó não é paciente no sentido que a expressão popular sugere. Ele amaldiçoa o dia em que nasceu: "Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Um homem foi concebido." (Jó 3:3)
Ele descreve a busca por Deus como uma procura em quatro direções sem achar ninguém:
Jó 23:8-10 — leia o capítulo em Jó 23.
E, no meio disso, ele diz duas das frases mais fortes de fé de todo o Antigo Testamento. Uma é: "Eis que, ainda que ele me mate, nele esperarei; porém defenderei meus caminhos diante dele." (Jó 13:15)
A outra é: "Pois eu sei que meu Redentor vive, e ao fim se levantará sobre a terra" (Jó 19:25).
Repare que essas frases não substituem os gritos. Elas convivem com eles, no mesmo homem, às vezes no mesmo capítulo. Fé, nesse livro, não é o oposto de reclamar. É continuar falando com Ele em vez de falar sobre Ele.
E então Deus fala, e não responde
Depois de trinta e cinco capítulos de silêncio absoluto de Deus, a voz vem.
Jó 38:1-4 — leia o capítulo em Jó 38.
E segue por quatro capítulos. Deus fala de estrelas, de mar, de chuva, de neve, de leão, de corvo, de cabra montesa, de avestruz, de cavalo, de gavião. Faz perguntas sobre o funcionamento do mundo, uma atrás da outra.
Em nenhum momento dessas quatro capítulos Deus explica por que Jó sofreu.
Ele não menciona a conversa do capítulo 1. Não justifica as perdas. Não dá o motivo. Se você está esperando o esclarecimento, ele não vem, e essa ausência é claramente proposital, porque o livro tinha todas as condições narrativas de fornecer a explicação e escolheu não fornecer.
A resposta de Jó é curta: "Eis que eu sou insignificante; o que eu te responderia? Ponho minha mão sobre minha boca." (Jó 40:4)
E depois: "Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora meus olhos te veem." (Jó 42:5)
O que muda em Jó não é o entendimento. É a presença. Ele continua sem saber o porquê, e para de precisar saber. Não vamos fingir que isso é simples, nem que dá para produzir esse estado em alguém à força.
O veredito final, que é uma surpresa
E aqui está a parte do livro que quase nunca é citada, e que deveria ser lida em todo velório.
Jó 42:7-8 — leia o capítulo em Jó 42.
Deus não se irrita com Jó, que gritou, exigiu julgamento e amaldiçoou o próprio nascimento. Deus se irrita com os três amigos que passaram trinta capítulos defendendo a justiça divina com argumentos bem construídos.
E o motivo dito é claro: "porque não falastes de mim o que era correto, como meu servo Jó."
O homem que reclamou falou certo sobre Deus. Os que explicaram falaram errado. Essa é a conclusão do próprio livro.
E há um detalhe final: os amigos são instruídos a levar ofertas e Jó é quem ora por eles. O ofendido intercede pelos consoladores ruins.
O que fazer com isso na sua semana
Se você está do lado de quem sofre: o livro de Jó existe para dizer que suas perguntas não são falta de fé, e que ninguém é obrigado a encontrar sentido dentro do prazo que os outros consideram razoável.
Se você está do lado de quem acompanha alguém: os sete dias de silêncio foram a única coisa que os amigos fizeram bem. Sentar junto, sem explicar, é a parte que Deus não reprovou.
Sobre esse mesmo assunto pelo lado prático, leia a Bíblia não tem pressa com o luto. Se orar ficou impossível, como orar quando não sai palavra usa os salmos de lamento como oração emprestada. E se você quer entender que tipo de livro é Jó, e por que ele parece tão diferente do resto, quem escreveu cada livro da Bíblia trata disso com honestidade.
Coleções: versículos de consolo no luto e versículos para depressão.
Ouça de quem sentou na cinza
Jó não oferece razões. Ele senta junto e conta o que viveu, inclusive as partes em que gritou.
