Glossário·Conceitos
Santificação
Santificação é o ato de separar alguém ou algo para uso de Deus — no vocabulário bíblico, santo quer dizer reservado, não impecável.
Santificação vem de santo, e santo, no hebraico, quer dizer separado. Uma bacia do templo não era mais nobre que uma bacia de cozinha: era a mesma bacia de barro, reservada para um uso só, e por isso não voltava para a cozinha. Essa é a imagem de fundo do termo. Quando o Novo Testamento aplica a palavra a pessoas, mantém a lógica e mostra as duas mãos do processo — Deus separando alguém, e alguém sendo instruído a se separar.
Onde aparece na Bíblia
No Levítico, a ordem vem com a razão colada nela: "Santificai-vos, pois, e sede santos, porque eu o SENHOR sou vosso Deus" (Levítico 20:7). Séculos depois, Pedro escreve a comunidades espalhadas pela Ásia Menor e repete o raciocínio, agora com o comportamento no meio: "assim como aquele que vos chamou é santo, sede vós também santos em todo o vosso comportamento" (1 Pedro 1:15). Nos dois casos a régua é externa. O modelo não é a média do grupo.
Paulo, escrevendo a uma cidade portuária, dá à palavra um conteúdo nada etéreo: "Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que não pratiqueis pecado sexual" (1 Tessalonicenses 4:3). Era carta com endereço, e o assunto era o que se fazia lá.
A Corinto, depois de listar um repertório de coisas que aquelas pessoas faziam antes, ele usa três verbos no passado: "já estais lavados, e santificados, e justificados no nome do Senhor Jesus" (1 Coríntios 6:11). E na oração registrada por João, a santificação aparece como pedido, não como esforço: "Santifica-os em tua verdade; tua palavra é a verdade" (João 17:17).
Por que isso importa hoje
Santificação é o termo com maior chance de virar cobrança. No português de igreja, ele muitas vezes desce ao nível de lista de proibições, e o texto original não fala em nível: fala em destino de uso. Também não promete cronograma. O incômodo do vocabulário está aí. Em 1 Coríntios 6:11 os verbos estão no passado, e a mesma comunidade descrita como santificada continuava recebendo instruções sobre comportamento. Como essas duas coisas convivem é matéria de debate entre as tradições cristãs, e não assunto de verbete.
Não confunda
Santificação e justificação dividem uma frase em 1 Coríntios 6:11 e não dizem a mesma coisa. Justificação é linguagem de tribunal, sobre como alguém está diante de Deus. Santificação é linguagem de separar para uso, sobre o que acontece com uma vida. Que relação exata existe entre as duas — ordem, causa, ritmo — é uma das discussões mais antigas entre católicos e evangélicos, e este verbete não a resolve.
Santificação e perfeição não são intercambiáveis nos textos. As cartas tratam gente santificada como gente que ainda recebe instrução, correção e prazo. Separado para um uso não significa pronto.