Glossário·Conceitos
Evangelho
Evangelho quer dizer boa notícia, o anúncio que um mensageiro corria para entregar — e é assim que o Novo Testamento chama a mensagem sobre Jesus.
Evangelho traduz o grego euangélion, boa notícia. Antes de ser título de livro, era palavra de correio e de propaganda de império: o mensageiro que chegava esfalfado com a notícia de uma vitória, o decreto que anunciava o nascimento de um herdeiro do imperador, o aviso lido em voz alta na praça. Quando os primeiros cristãos pegaram esse termo para o que tinham a dizer, estavam usando vocabulário oficial, e todo mundo reconhecia o formato: alguém venceu, e a notícia é para todos.
Onde aparece na Bíblia
A imagem antiga é dos pés de quem traz o recado: "Como são agradáveis sobre os montes os pés daquele que dá boas notícias, que anuncia a paz" (Isaías 52:7). Quem vinha a pé pelas montanhas era o correio da época, e a notícia chegava junto com o corpo dele, suado, visível de longe.
O resumo mais antigo do conteúdo está numa carta de Paulo, e ele avisa que está apenas repassando algo que recebeu: "que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras" (1 Coríntios 15:3), "E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras" (1 Coríntios 15:4). São poucas linhas, sem doutrina elaborada, no ritmo de coisa decorada para repetir em voz alta — provavelmente a fórmula cristã mais velha que chegou até nós.
A Roma, capital do império que inventou esse tipo de anúncio, Paulo escreve: "não me envergonho do Evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiramente do judeu, e também do grego" (Romanos 1:16).
Por que isso importa hoje
Em português, evangelho ficou pesado e litúrgico, associado a leitura em voz alta e a livro de capa dura. O sentido original era mais leve e mais urgente: notícia. Notícia se conta, e quem conta não precisa de entonação especial. Vale registrar também o atrito que a palavra perdeu no caminho. Ela nasceu como termo de império, e usá-la para um homem executado por esse mesmo império era, no primeiro século, uma ironia que ninguém deixava passar. Hoje ela raramente carrega esse peso — virou nome de gênero literário e de estilo musical.
Não confunda
Evangelho e Evangelhos se escrevem quase igual e não são a mesma coisa. No singular, é a mensagem: quando Marcos abre o livro com "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo" (Marcos 1:1), a palavra ainda significa notícia, não gênero. No plural e com maiúscula, Evangelhos são os quatro relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João. O nome dos livros veio depois, emprestado do primeiro sentido.
Evangelho e Novo Testamento também não coincidem. O Novo Testamento tem 27 livros, dos quais quatro são Evangelhos. Cartas, Atos e Apocalipse falam do evangelho sem serem Evangelhos.