Glossário·Práticas e festas
LeviratoLevirato: le-vi-RA-to
Levirato era a lei que obrigava o cunhado a casar com a viúva sem filhos, para que o primeiro filho levasse o nome do irmão morto.
Levirato era a regra pela qual o irmão de um homem morto sem filhos casava com a viúva, e o primeiro filho desse casamento contava, para efeito de nome e herança, como filho do morto. O termo vem do latim levir, cunhado. Não havia romance nem escolha na equação: era mecanismo de sobrevivência num sistema em que terra, renda e sobrenome passavam por homens. Uma viúva sem filho ficava sem lugar e sem direito ao campo da família em que havia entrado.
Onde aparece na Bíblia
A lei está em Deuteronômio, sem rodeios: "Quando irmãos estiverem juntos, e morrer algum deles, e não tiver filho, a mulher do morto não se casará fora com homem estranho: seu cunhado entrará a ela, e a tomará por sua mulher, e fará com ela parentesco" (Deuteronômio 25:5).
Recusar tinha preço público. O texto descreve a cena, diante dos anciãos, na porta da cidade: a cunhada "o descalçará o sapato de seu pé, e lhe cuspirá no rosto, e falará e dirá: Assim será feito ao homem que não edificar a casa de seu irmão" (Deuteronômio 25:9). Sandália na mão e cuspe na cara, com testemunhas.
O livro de Rute mostra a lei funcionando, e mostra terra e casamento no mesmo pacote. Boaz declara, também na porta da cidade: "tomo por minha mulher a Rute moabita, mulher de Malom, para suscitar o nome do defunto sobre sua herança" (Rute 4:10).
Séculos depois, a mesma lei vira peça de debate. Um grupo de saduceus procura Jesus com uma charada montada: "Se um homem morrer sem ter filhos, seu irmão se casará com sua mulher, e gerará descendência ao seu irmão" (Mateus 22:24). Inventam sete irmãos e uma viúva para perguntar de quem ela seria na ressurreição.
Por que isso importa hoje
Lido com a régua de hoje, o levirato é difícil de engolir: uma mulher que passa de irmão para irmão, e o texto não registra em nenhum momento se alguém lhe perguntou algo. Do outro lado, e isso não é elogio: a alternativa para uma viúva sem filhos era mendigar. A proteção existia, e vinha na forma que aquela sociedade tinha para oferecer — o que não é o mesmo que dizer que a forma era justa. Em Mateus 22:24, o detalhe mais revelador é o uso: uma lei feita para socorrer viúva servindo de enigma numa discussão entre homens.
Não confunda
Levirato e resgate: eram duas obrigações vizinhas. O resgatador comprava de volta a terra que a família havia perdido; o levirato garantia o nome do morto. Em Rute 4:10 as duas se resolvem na mesma cena.
Levirato e poligamia: a lei não tratava de acumular esposas. Tratava de um caso específico e delimitado — o irmão que morreu sem deixar filho.