Glossário·Pessoas e grupos
Centurião
Centurião era o oficial do exército romano que comandava uma centúria, cerca de cem soldados — o graduado de carreira que aparece nos Evangelhos e em Atos.
Centurião era o oficial que comandava uma centúria: cem homens no papel, uns oitenta na prática. Não era nobre nem indicado por família — subia da tropa, ficava vinte anos ou mais no serviço, recebia várias vezes o salário de um soldado raso e respondia pelo treino, pela marcha e pela disciplina do grupo, bastão na mão. Na Judeia ocupada, ele era a cara do império na esquina: quem cumpria ordem de prisão, quem escoltava preso, quem comandava execução. Um centurião em Cafarnaum tomava conta de uma cidade pequena e vivia no meio de gente que não o queria ali.
Onde aparece na Bíblia
Em Cafarnaum, um centurião procura Jesus por causa de um empregado doente e argumenta com raciocínio de quartel: "Senhor, não sou digno de que entres sob meu telhado; mas dize somente uma palavra, e o meu servo sarará" (Mateus 8:8). Ele entende ordem cumprida à distância porque é isso que faz o dia inteiro. A frase entrou na liturgia da missa e é repetida até hoje, quase sempre sem que se lembre de quem a disse primeiro: um oficial do exército de ocupação.
No Gólgota, a frase mais direta do Evangelho de Marcos sai da boca do encarregado do serviço: "E o centurião que estava ali diante dele, vendo que havia expirado assim, disse: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus" (Marcos 15:39). Não é um discípulo. É o profissional que já tinha visto muita gente morrer daquele jeito.
E em Cesareia, Atos apresenta outro com ficha completa: "havia um certo homem em Cesareia, de nome Cornélio, centurião, do esquadrão chamado Italiano" (Atos 10:1), "Devoto, e temente a Deus, com toda a sua casa; e que fazia muitas doações ao povo, e continuamente orava a Deus" (Atos 10:2). Um oficial romano que rezava e dava esmola no país que ocupava.
Por que isso importa hoje
Chama atenção que os centuriões apareçam bem retratados de ponta a ponta, considerando quem eram e o que faziam para viver. Marcos entrega a frase-chave da crucificação ao homem que estava de plantão na execução; Lucas escolhe um oficial estrangeiro como primeiro de fora a receber o Espírito. O texto não pede desculpas por isso e também não absolve o ofício — o mesmo posto que socorre em Atos é o que crava a cruz em Marcos. Em português, "centurião" ficou preso ao filme de época, com capa vermelha e sandália de tira. O original tinha escala de turno, folha de pagamento e ordem para cumprir.