Filipenses 4:13 não é o que você pensa
Paulo escreveu "posso todas as coisas" preso, no fim de um parágrafo sobre passar fome e ter abundância. O verso é sobre suportar, não sobre conquistar.
Redação Conversa com a Fé · · 10 min de leitura
"Posso todas as coisas naquele que me fortalece."
É o verso de camisa de time, de foto antes da prova, de legenda de treino, de tatuagem no antebraço. E ele está na Bíblia, exatamente assim, em Filipenses 4:13.
O problema é que ele vem sendo usado como promessa de desempenho, e no texto ele é a conclusão de um raciocínio sobre suportar privação. A diferença entre as duas leituras é grande, e a versão real é mais útil.
Onde Paulo estava quando escreveu isso
Comece pela circunstância, porque ela é decisiva.
Filipenses 1:12-14 — leia o capítulo em Filipenses 1.
"As minhas prisões." Paulo escreve essa carta detido, sob custódia, com guarda pretoriana em volta. Ele não está numa fase de vitória: está sem liberdade de ir e vir, dependendo de outros para comer e para receber notícia.
E ele não tem certeza do desfecho. Poucos versos adiante: "Pois, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro." (Filipenses 1:21) Ele está pesando as duas possibilidades porque as duas estavam em aberto.
Guarde isso. Quem escreveu "posso todas as coisas" não sabia se sairia vivo.
Quem eram os filipenses, e por que isso pesa
Vale saber quem recebeu essa carta, porque a relação entre Paulo e essa igreja é a coisa mais bonita do texto.
Filipos era colônia romana na Macedônia, e a igreja de lá nasceu de um jeito peculiar. Atos registra que Paulo chegou à cidade e, no sábado, foi procurar um lugar de oração fora dos muros. Ali ele conheceu uma comerciante:
Atos 16:12-15 — leia o capítulo em Atos 16.
Lídia, vendedora de púrpura, ou seja, alguém que trabalhava com tecido de luxo. Foi na casa dela que a igreja começou.
E poucos versos depois, na mesma cidade, Paulo e Silas são presos:
Atos 16:22-25 — leia o capítulo em Atos 16.
Açoitados, na cela mais interna, com os pés no tronco, cantando por volta da meia-noite. Ou seja: a primeira experiência de Paulo em Filipos já tinha sido de prisão e de canto na prisão.
Anos depois, escrevendo de outra cadeia, ele abre a carta a essa mesma igreja assim: "Agradeço ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós" (Filipenses 1:3). Existe história compartilhada de cárcere entre quem escreve e quem lê.
O motivo imediato do parágrafo: uma doação
O capítulo 4 termina com um assunto prático e um pouco delicado: dinheiro. A igreja de Filipos mandou um socorro material para Paulo, e ele está agradecendo.
Filipenses 4:10 — leia o capítulo em Filipenses 4.
E ele explica o histórico da relação: "no princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja compartilhou comigo no dar e no receber, a não ser vós somente" (Filipenses 4:15).
Ou seja, o contexto imediato do verso 13 é um agradecimento por uma ajuda financeira. É um trecho de carta em que Paulo está lidando com a situação embaraçosa de ter precisado receber.
E aí ele faz uma ressalva, para que o agradecimento não seja lido como cobrança nem como carência:
Filipenses 4:11-12 — leia o capítulo em Filipenses 4.
Este é o parágrafo do qual o verso 13 é a última linha. Leia a lista:
"Sei estar humilhado, e sei ter em abundância."
"Tanto a estar farto, como a ter fome."
"Tanto a ter em abundância, como a sofrer necessidade."
Três pares, e em cada par estão as duas pontas. Não é uma lista de conquistas. É uma lista de condições opostas nas quais ele diz ter sido instruído.
E então: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece." (Filipenses 4:13)
"Todas as coisas", nesse parágrafo, tem antecedente explícito. São as coisas que ele acabou de listar: fartura e fome, abundância e falta. O verso responde à pergunta "como você consegue viver nas duas situações?", e não à pergunta "como você vence qualquer desafio?".
A palavra que a tradução esconde
Vale também observar o verbo "aprendi", no verso 11: "já aprendi a contentar-me com o que tenho".
Contentamento, aqui, é descrito como coisa aprendida. Não como temperamento, não como dom, não como resultado automático de conversão. Alguém aprende, e aprender pressupõe processo, tentativa e tempo.
Isso é uma boa notícia para quem não se sente assim hoje. E é uma correção para quem trata contentamento como sinal de espiritualidade superior.
Quem é o "aprendiz" que está falando
Se ainda houver dúvida sobre o tipo de experiência que Paulo tinha em mente, ele mesmo forneceu a lista em outra carta:
2 Coríntios 11:24-27 — leia o capítulo em 2 Coríntios 11.
Açoites, apedrejamento, naufrágios, uma noite e um dia à deriva no mar, fome, sede, frio e falta de roupa.
É esse o currículo de quem escreveu "posso todas as coisas". Ele não está falando de superar limites em busca de conquista. Está falando de continuar de pé em situações que a maioria de nós nunca vai enfrentar.
E existe uma frase dele, na mesma carta, que é o outro lado da moeda do verso famoso. Sobre um problema que ele pediu para Deus tirar e Deus não tirou:
2 Coríntios 12:9-10 — leia o capítulo em 2 Coríntios 12.
"Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." Note que o pedido não foi atendido. O que veio foi outra coisa.
Se "posso todas as coisas" significasse capacidade ilimitada de resolver, essa passagem não existiria.
Duas leituras, lado a lado
Vale colocar as duas em paralelo, para ficar claro o que muda.
Leitura de desempenho: o verso promete que, com fé, você consegue realizar qualquer coisa que se proponha. Falha implica falta de fé.
Leitura do texto: o verso afirma que existe força suficiente para atravessar qualquer condição, inclusive as ruins, inclusive a que não muda. Não promete que a condição vai mudar.
A primeira leitura cria uma armadilha cruel. Se o verso garante resultado, então quem não obteve resultado foi quem falhou espiritualmente. Já vimos gente sair da fé por causa dessa conta.
A segunda leitura funciona no pior dia possível, e é a que Paulo escreveu.
O outro verso do mesmo capítulo que também é usado errado
Alguns versos depois vem outro texto famoso: "E meu Deus suprirá todas a vossas necessidades segundo as suas riquezas em glória em Cristo Jesus." (Filipenses 4:19)
Repare a quem ele é dirigido: aos filipenses, que acabaram de dar dinheiro a Paulo mesmo sendo uma igreja pobre. É uma promessa dita a doadores generosos sobre suas necessidades, e a palavra é necessidade, não desejo.
Falamos com mais detalhe sobre essa diferença em o que a Bíblia realmente diz sobre dinheiro.
Por que esse verso virou lema esportivo
Vale entender como um verso sobre passar fome se tornou frase de vestiário, porque o mecanismo é o mesmo que distorce outros textos.
Primeiro, ele é curto e sonoro. Cabe em camisa, em tatuagem, em legenda. Segundo, ele começa com "posso", que em português soa como capacidade e conquista. E terceiro, ele foi popularizado fora do parágrafo, quase sempre sozinho, sem os três pares de opostos que vêm antes.
Isso cria um efeito curioso: o verso mais usado para celebrar vitória é, no texto, o verso de alguém explicando como sobrevive à derrota material.
E o mesmo mecanismo explica a distorção de outros textos famosos no Brasil. Um verso viaja bem quando é curto, positivo e descontextualizado. Um verso viaja mal quando exige saber quem escreveu e de onde. É por isso que os dois versículos mais tatuados do país, este e o do capítulo 29 de Jeremias, são justamente dois que perdem o sentido quando lidos sozinhos.
Não é culpa de quem compartilha. É a natureza do formato. A correção é simples e sempre a mesma: leia o parágrafo.
Como usar Filipenses 4:13 sem mentir
Você não precisa tirar esse verso da sua tatuagem, nem parar de dizê-lo. Ele é verdadeiro. Só vale dizer sobre o que ele é.
Ele serve muito bem para: um tratamento longo, um período de desemprego, um trabalho que você odeia e por ora não pode deixar, uma casa em que você é o único que cuida de alguém, um período de fartura em que você teme se acomodar, uma perda que não tem reparo.
Ele não serve para: prometer aprovação, cura garantida, promoção, casamento restaurado ou meta batida.
E vale lembrar de duas frases da mesma carta que o cercam. Paulo escreve que aos filipenses foi dado "não somente o crer nele, mas também o sofrer por ele" (Filipenses 1:29). E conta que o mensageiro deles, Epafrodito, ficou doente "quase a morrer" (Filipenses 2:27) e que isso deixou Paulo triste.
A carta de Filipenses é conhecida como a carta da alegria, e ela tem prisão, doença grave, tristeza e falta de dinheiro dentro dela. A alegria de que ela fala não é a ausência dessas coisas.
Para o outro verso mais citado fora de contexto no Brasil, leia Jeremias 29:11 e o contexto que mudou tudo. E se você chegou aqui procurando força para lidar com ansiedade, o capítulo 4 de Filipenses tem um trecho específico sobre isso, aberto em o que a Bíblia diz sobre ansiedade.
Coleções: versículos de força e versículos para tatuagem.
Ouça de quem escreveu preso
Paulo escreveu essa carta de dentro de uma cela, agradecendo uma doação. Ele conta como era, e não faz esforço para parecer mais forte do que foi.
